Júlio Isidro recorda pai: “Esperou por mim duas semanas para em 5 minutos de silêncio me dar a mão e partir…”

Júlio Isidro recorreu às redes sociais para partilhar um texto emotivo, sobre o pai. O apresentador recordou alguns momentos emotivos da vida do pai, elogiando a forma como este o tratava – por “rapaz” -, mostrando ainda uma fotografia onde surge ao seu colo.

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Lê aqui na íntegra:

“O MEU PAI NASCEU HOJE.
4 de Setembro de 1911, primeiro ano da República de um menino geneticamente monárquico.
Era assim, foi assim, tranquilamente, silenciosamente do lado certo da história, do “reviralho” em textos superiormente escritos e divulgados de mão em mão e nas tertúlias de falar baixinho do estado em que “aquilo estava”.

Tão culto, tão talentoso, tão dotado, tão conformado com a sua condição de anónimo voluntário. Quando partiu, andava a ensaiar a língua chinesa , ele que já em miúdo me dizia que o domínio do mundo um dia viria dali. Ainda , ainda não aconteceu…Tinha dois cursos superiores, Filologia clássica e histórico filosóficas que utilizou para uso caseiro e pouco mais… foi com ele que aprendi muito do que sei hoje, mormente uma forma límpida de exercer a língua portuguesa.

O que eu aprendi de etimologia latina e grega para saber o porquê do que digo e escrevo. Jogava tão bem bilhar, sempre mais de 50 carambolas seguidas, ténis de mesa ágil e esquerdino, tocava piano, viola, guitarra, sem saber uma nota de música, foi afinador de pianos e ganhava bem com esse passatempo, dançava muito bem, adorava gravatas, vestia bem mesmo com fatos virados em tempo de crise, nadava milhas nas águas frias da Figueira da Foz e era do Sporting…como se vê na foto anexa com o bebé Julinho ao colo. Lia muito e falava pouco porque seguia o princípio de S. Francisco de Sales ” O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.

Escrevia uma coluna de humor sobre desporto no Jornal A Bola sob o pseudónimo de Quasi-mudo e deixou de escrever quando um fanático futeboleiro lhe mandou uma carta anónima a chamar-lhe nomes. O conflito era o seu inimigo e a paz a sua utopia. Adorava a minha mãe, as minhas manas e tratava-me por rapaz.

Esperou por mim duas semanas para em 5 minutos de silêncio me dar a mão e partir. Que dignidade …quero eu assumir no meu momento derradeiro. O meu pai nasceu hoje, e nasce todos os dias, nos simpáticos e generosos elogios que por aqui me vão fazendo. A cultura, a educação, a herança genética e contraditória, o culto da palavra e o desejo de uma sociedade , solidária e fraterna, nos princípios ainda imutáveis da revolução francesa, tudo isso que me atribuem, devo ao senhor que nunca deixou que o tratassem por “Dótor”, José Mantero Sesinando da Silva Isidro do Carmo. É em nome do bebé que nasceu hoje há 110 anos que vos agradeço. Papá agradeço-lhe a gentileza que teve em ser meu pai”

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